terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O que vale Rafa, afinal?



"Tivemos interesse efetivo no Rafa. Mas há que ser realista. Quando o Braga pediu 10 milhões de euros por 50% do passe do Rafa está a colocá-lo ao nível do Imbula e a um nível superior a de todos os outros, pois está a valorizá-lo em 20 milhões. Eu considero que ele tem futuro e sou apreciador das suas qualidades, mas repare que nos sub-21 nem foi titular. Se vale 20 milhões, se calhar o Gonçalo Paciência ou o Ricardo Pereira valem 25 milhões. E o Ivo Rodrigues valeria 20. Esses é que resolveram jogos. Valorizar um não titular em 20 milhões, não. Não vamos entrar em loucuras."  

Pinto da Costa, em entrevista a O Jogo, julho de 2015

Fechou o mercado e não se pode afirmar que o FC Porto tenha saído do carrossel com um plantel fortalecido. Dizer que está mais frágil também é um risco, isto porque como coletivo os dragões têm seguramente mais a ganhar em ter reforços que efetivamente querem estar na equipa, do que um conjunto de jogadores conceituados mais preocupados com o seu umbigo. Casos de Osvaldo e Imbula, sendo que este último acabou por ser um problema resolvido no último dia do mercado, através do grito salvador de um Stoke City que nunca tinha comprado um jogador tão caro. Em termos contabilísticos Imbula deu lucro - comprado por 20 milhões, foi vendido por 24 milhões seis meses mais tarde - mas na prática, descontando as comissões e os mecanismos de solidariedade envolvidos na transferência, Imbula não deixou saudades nem aos cofres nem aos adeptos.

Saíram ainda Tello e Cissokho, dupla com espaço reduzido no plantel e um ordenado nada compatível com o estatuto de suplentes. No fundo, o mercado de inverno serviu para os portistas reduzirem a folha salarial do plantel. Suk, Marega e José Sá, desejados pelo Sporting, foram parar ao Dragão. São todos internacionais, embora com potencial teoricamente inferior aos futebolistas que saíram. Aplicam-se aqui velhos ensinamento milenares: ver para crer, dar tempo ao tempo, ver no que isto vai dar, na certeza de que ao contrário de Osvaldo e Imbula, Suk, Marega e Sá queriam muito ir para o FC Porto. Não foi um frete.

A ilusão de que um jogador caro faz a diferença não passa disto mesmo, de uma ilusão. Imbula foi caro por causa do seu rendimento nulo no FC Porto, da sua evidente falta de entusiasmo pelo projeto praticamente desde a primeira semana e pela atitude no campo e nos treinos. Façamos agora o paralelismo com Rafa, que os portistas tentaram sem sucesso contratar no último dia de mercado - isto depois de um anterior avanço no verão igualmente mal-sucedido, conforme relatou a O Jogo Pinto da Costa, em julho passado.

O que faltava a Rafa que sobrava a Imbula? O português foi ao Mundial do Brasil, algo que Imbula continua a sonhar por estes dias, embora não saiba exatamente com que seleção poderá lá chegar. Rafa é internacional sub-21, tal como o francês, mas também é internacional A; Rafa custa 20 milhões, mas em julho podia ter ido para o Dragão por metade do preço, numa lógica de partilha de percentagem do passe; Rafa não é da Doyen, mas parte do seus direitos económicos foram (diz-se) adquiridos pelo superagente Jorge Mendes. Rafa joga no SC Braga, Imbula era crónico titular no Marselha. Os marselheses fizeram a festa quando o médio foi comprado pelo FC Porto por 20 milhões; em contrapartida, nenhum bracarense digno desse nome admitiria como lógico que Salvador vendesse a joia do plantel a meio do ano, por menos do que o valor da cláusula. E se os dragões batessem a cláusula, seguramente ninguém faria uma festa em Braga - haveria um encolher de ombros resignado, nunca um aplauso ruidoso.

O que define claramente a fronteira entre o caro e o barato é rendimento de um ativo e o seu talento quando colocado ao serviço do sucesso do coletivo. O caso de Lima no Benfica é paradigmático - na altura os encarnados foram criticados por terem desembolsado 4 milhões de euros na sua contração ao SC Braga. Abençoado dinheiro, Lima foi barato em função da sua influência nos títulos conquistados pelo Benfica. É isso que define atualmente o valor do pequeno Hazard do SC Braga: o que dele a equipa retirou e ainda retira nas quatro frentes em que está envolvida (um caso único no panorama dos clubes nacionais, frise-se). 
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