domingo, 20 de setembro de 2015

Um presidente do Krajl (e como ele me deu uma lição para a vida)



O título é inspirado na página do Facebook «Um azar do Krajl», de leitura obrigatória para polvilhar com notas de humor e boa disposição alguns dos nossos dias sombrios. Kralj foi seguramente dos piores guarda-redes que passaram pelo futebol português – pior ainda que Roberto, que as gerações mais novas devem recordar bem por ocasião da sua acidentada passagem pelo Benfica.

É escusado fazer um longo apanhado do montenegrino Krajl no FC Porto. Foi um flop, apesar de na época ser um guardião categorizado, uma lenda do Partizan e titular da seleção da Jugoslávia. Até ao ano passado, curtiu a sua reforma discretamente em Belgrado mas inaugurou em 2015 novo ciclo, ao assumir a presidência do FK Mačva Šabac. Clube que desceu à II Divisão na época anterior, mas pode ter sido apenas uma coincidência. Agora, lidera a tabela do 2.º escalão, com 16 pontos.

Além de ter cativado humor de qualidade, até entre os adeptos portistas, Krajl ficou ligado a uma das histórias que guardo na minha carreira. FC Porto-Olympiakos, 16 de setembro de 1999. Fui destacado para a reportagem desse jogo, no Estádio das Antas. Zahovic e Jardel colocaram os portistas a ganhar por 2-0. O golo de Jardel foi aos 82 minutos e naquela altura era importante recolher o depoimento dos VIP e de Pinto da Costa. Como muitos tinham o hábito de sair mais cedo, achei que era seguro descer e esperar por eles à porta, que ficava fora do estádio, embora num acesso em que era perfeitamente audível o ambiente nas bancadas.

Não ouvi nada de anormal até ao apito final. Mas depois vi algo que me surpreendeu. O pessoal ia desfilando com expressões que não combinavam com uma vitória confortável por 2-0. Todos recusaram falar, Pinto da Costa saiu disparado, e só ouvia os VIP vociferar «frangueiro de merda». Não estava a perceber. Até que passados quatro minutos chega o primeiro companheiro, que me pergunta:
- Falou alguém?
- Não. Parecem mal dispostos.
- Claro.
- Claro porquê?
- Então... o Krajl. Fez jus ao apelido, nunca vi nada assim.
- Mas o quê, pá?
- Viste o jogo até ao fim?
- Saí depois do golo do Jardel.
- Ah, fizeste bem. Os gajos empataram. Eles não, o Krajl é que empatou. #$%$
- (Fail...)

Quando caio na tentação de achar que me dá um certo jeito sair um minuto mais cedo da bancada de Imprensa, lembro-me sempre deste episódio. Das poucas lições úteis de Krajl. 
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