quinta-feira, 13 de maio de 2010

O Manel merece, pá!

“O Manel tinha uma bola
Mas por falta de atenção
Lá deixou ele ir a bola
Presa nos dentes de um cão”

“O Manel tinha uma bola
Mas agora não tem não
A gente a ver se o consola
Vai cantar-lhe esta canção"


Canção infantil

Não sei se estão familiarizados com a canção. Eu estou. Com infinita paciência, canto-a todas as noites ao meu filho, que tem quase dois anos e uma resistência olímpica ao sono – «esse velho crápula nunca me irá apanhar», prometeu ele ao nascer. Do extenso cardápio musical que lhe sirvo em cada anoitecer, essa é a mais violenta e reaccionária composição infantil de que há memória desde o popular «Atirei O Pau Ao Gato». Quem tem filhos sabe que os pequenotes são inigualáveis na sua bondade e genuínos na crueldade. Por muito que queira subtrair a canção do alinhamento, a dada altura surge o pedido, feito telegraficamente mas com inabalável firmeza. «Boala, Manel!» E eu canto, com o ânimo possível e a alma desfeita. É brutal. Em síntese, suspeito que o meu filho retira o máximo prazer da miséria do Manel. Refastelado, e vingando-se de um sono indesejado, dirá: «Valente cão, pá! Bem feito pró Manel. Espero que o pai lhe bata.» À luz daquilo que se julga ser o padrão de pensamento de um bebé, a conclusão pode parecer precipitada. Talvez seja. No entanto, se trocar o nome do Manel pelo dele, já não acha tanta piada. Por vezes sai um sonoro «não» a interromper uma interpretação divinal que faria Diana Krall corar de vergonha. A graça está no cão abocanhar a bola ao Manel. E só a ele. Mais engraçado ainda é os amigos do Manel, claramente da onça, lhe dedicarem uma música que não só não o consola, como acentua o estado de desgraça em que o rapaz caiu. E eu canto. Em troca de um boa noite de sono, até lhe cantaria Marilyn Manson.

PS: Abriu a época de caça às notícias e a minha disposição para falar de futebol é, neste momento, quase nula. É coisa para durar 24 horas. Não desesperem.
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