quinta-feira, 29 de abril de 2010

Figo e Mourinho: ódios e paixões



No Verão de 2000 estive em duas cidades. Duas metrópoles espanholas: Barcelona, primeiro, e Madrid, depois, para acompanhar as eleições do Real Madrid, que Florentino Pérez venceu, destronando Lorenzo Sanz. Luís Figo era então o trunfo eleitoral de Pérez, mas não estava em Espanha. Refugiara-se na Sardenha para escapar ao cerco mediático. Dez dias em Espanha sem Luís Figo, quando era Luís Figo, no fundo, o fito da minha viagem, parecia-me um cenário pouco promissor. Para falar a verdade, ainda bem que ele não estava, porque do primeiro ao décimo dia as páginas - muitas páginas - que escrevi sobre a sua mudança do Barcelona para o Real Madrid ajudaram-me, a mim e ao leitor, a perceber que tipo de sentimentos despertava Figo nos catalães e madrilenos. Ódio e Amor. Desprezo e soberba. Derrota e vitória. Lembro-me dos olhos emudecidos da sua fã número 1 em Barcelona, afundada na sua própria miséria, dividida sobre que destino dar às fotos, centenas delas, que tirara ao lado de Figo. «Partiu-me o coração», soltava, como se a vida deixasse de fazer sentido.

Nunca ninguém amou ou há-de amar tanto Figo como os adeptos do Barcelona o amaram. Nunca Figo será tão odiado como na cidade condal. No Real gostarem dele. Mas foi um galáctico entre tantos outros, não houve com os adeptos a cumplicidade que fez dele referência do Barça, até os milhões o levarem ao inimigo da capital.

Tudo isso para dizer que José Mourinho é tramado: levar Figo para o banco no jogo de ontem foi uma facada violenta no orgulho catalão. Mas, como ele disse no fim do jogo, a melhor equipa do Mundo não precisa de fogo de artifício à porta do hotel do adversário para vencer. Tem de vencer. E o Barcelona, mesmo tendo ganho, perdeu a batalha final frente a um Inter que tem a marca registada de um mestre: ele mesmo, o Special One, Mourinho.
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