segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A «minha» CAN

Devo à Taça das Nações Africanas a minha emancipação como jornalista. Em 2000, estive um mês na Nigéria e no Gana, em condições extremas, saltando entre Lagos, Acra e Kano (a norte da Nigéria, dominada por islamitas) em aviões concebidos antes do meu nascimento, dormindo onde calhava, escrevendo onde podia. Foi uma aprendizagem intensiva num cenário difícil, numa cultura muito diferente da europeia e onde compreendi que a verdadeira essência do futebol está em África - nas bancadas, onde o povo vibra genuinamente com o jogo.

Há coisas que nunca esquecerei desse Nigéria-Gana de 2000: as atribuladas viagem a bordo da Air Ghana, e as curvas que o avião descrevia antes da aterragem, como se o piloto estivesse aos comandos de um caça; a primeira vez que levei com gás lacrimogénio, em Kano, no final de um jogo em que acidentalmente um espectador virou Coca-Cola no meu computador novinho em folha, arruinando-o; o convívio com as grandes estrelas dos Camarões, num hotel em Acra; a sorte que senti quando perdi um avião que regressaria passados 15 minutos à pista, depois de descer a pique por falta de oxigénio; o meu quarto de hotel no meio de um bairro de lata em Acra, onde havia uma enorme mancha de sangue seco na alcatifa, e a cara de caso do dono quando lhe perguntei se alguém tinha sido assassinado ali; a inesperada entrevista a Joseph Blatter, presidente da FIFA, numa manhã quente na capital do Gana. Apanhei-o ao pequeno-almoço, estava eu num estado lastimável, depois de uma directa, com barba de cinco dias, uma t-shirt ranhosa do Hard Rock Café de Ibiza e uns calcões manhosos azuis, para aguentar os 41 graus daquele dia de abertura da CAN.

Foram os dias mais difíceis da minha existência. E os mais felizes, profissionalmente falando. Repetirei a aventura, um dia. Fica a promessa.
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