quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Baptista Bastos «dixit»




Com a devina vénia, publico no blogue a mais recente crónica de Baptista Bastos no Jornal de Negócios. Vale a pena ler, compreender e reflectir (se o quiserem fazer, porque meditar é um exercício livre).

No Prós-e-Contras, excelente programa de Fátima Campos Ferreira, pouco faltou para que os jornalistas participantes se engalfinhassem. Foi na segunda-feira. Quem apaziguou os ânimos e tentou inverter o sentido da zaragata para aspectos mais positivos, foi Paquete de Oliveira, provedor do leitor da RTP, que qualificou a triste chicana de "lavar de roupa suja."

Paquete é um homem sério, sábio e sensato. Dois dos jornalistas presentes (neste caso são dois, mas há muitos outros) não me merecem a mínima consideração nem o mais escasso respeito. Não há memória de qualquer deles ter escrito uma grande reportagem, um artigo assinalável pela pedagogia e pelo estilo, uma crónica definitiva, uma entrevista para figurar no armorial do ofício. São dois zelosos burocratas medíocres, que os acasos do descaso fizeram trepar a postos importantes em dois jornais.

Adiante. Os dois exemplares apontados correspondem ao retrato do País e a um certo tipo de desaforo que se tornou comum na sociedade portuguesa. Não lhes ferro, aqui, os nomes porque desejo manter asseada esta página. Nesta página, aliás, por duas vezes me referi ao caso das escutas em Belém. Quanto ao e-mail que passou de um para outro jornal prefiro, por enquanto, manter-me em silêncio, embora possua umas ideias sobre o assunto.Durante a desagradável refrega, um dos preopinantes, para apoucar um terceiro, bolçou, depreciativo e grotescamente impante, que este último procedia do jornalismo desportivo.

Afirmação lacrada por atroz ignorância. Vou tentar ser didáctico. Do jornalismo desportivo foram alguns dos maiores nomes da Imprensa portuguesa de sempre. Lembremos o exemplo clássico de "A Bola", semanário (hoje diário) fundado por Cândido de Oliveira, um dos vértices do "triângulo de oiro" constituído por Tavares da Silva e por Ricardo Ornellas. Três homens de grande cultura, de aparo afiado e de vocabulário riquíssimo. Tavares da Silva foi o fabuloso criador de algumas das grandes metáforas do jornalismo. Ornellas, com quem trabalhei, no "Diário Popular", discreteava, com supremo à-vontade, tanto sobre Camilo, Vieira, Eça, Fialho, como acerca dos problemas delicados do futebol.

Os três escreviam num idioma de lei. N'"A Bola" foram redactores pessoas da estirpe de Carlos Pinhão, Vítor Santos, Aurélio Márcio, Carlos Miranda, Homero Serpa, Alfredo Farinha. Qualquer um de estes publicou textos magníficos. E qualquer um de os preopinantes aludidos não chega aos calcanhares daqueles que um deles depreciou. Ainda hoje, o grande diário mantém a tradição, com redactores como Santos Neves, Vítor Serpa, Cruz dos Santos, outros de igual gabarito.Conheci, pessoalmente, a maior parte destes grandes jornalistas, agora, por decorrência de raciocínio, minimizados por um pobre tipo. E, a talhe de foice, lembro que o primeiro chefe de Redacção de "A Bola" foi Augusto Valdez, um homem a quem os homens de bem se sentiam orgulhosos em apertar a mão. Valdez, tal como Cândido de Oliveira, estivera preso no Tarrafal. Valdez, comunista, e Cândido, antifascista activo, estabeleceram naquele campo de concentração, uma amizade que se prolongou pela vida fora.


Sem emprego, Valdez foi convidado por Cândido para chefiar a Redacção do novo semanário. Pouco ou nada sabia da profissão. Isso, porém, era secundário, e Cândido ministrou-lhe os ensinamentos primordiais.Foi, também, n'"A Bola", que Cândido de Oliveira criou uma secção… de literaturas, artes e afins. Era um roda-pé, na última página, intitulado "Cartas a um Jovem Desportista que se Interessa pela Cultura" e levava a prestigiada assinatura do maior crítico e ensaísta literário do século XX: João Gaspar Simões. Muitos anos depois, e por insistente sugestão de Carlos Pinhão, conhecidos escritores e jornalistas colaboraram no prestigiadíssimo jornal.Mas outros grandes jornalistas houve, no desportivo. Nomeio Raul de Oliveira, Frederico Cunha, Alves Teixeira, Couto Santos. Sem nunca esquecer o grande Neves de Sousa.

Um parágrafo de qualquer destes vale, ainda hoje, mais, do que as escorrências que os dois aludidos preopinantes têm feito publicar. Notoriamente, ambos ignoravam estas etapas da Imprensa portuguesa.O jornalismo desportivo, durante o fascismo, salvou a honra de uma Imprensa amordaçada. Como a Censura era muito mais branda, os redactores serviram-se, inúmeras vezes, dos relatos que faziam para, através de metáforas e de analogias, criticar o regime. E, como viajavam por todo o mundo, à margem do trabalho de agenda escreviam brilhantes peças jornalísticas sobre as características sociais e políticas, os povos e os hábitos dos países visitados.Quero, também, assinalar que fui um dos doze jornalistas que assinaram um documento, exigindo a sindicalização dos camaradas desportivos.

Esta exigência de ordem profissional e moral era tenazmente contrariada por gente dos "diários", a maioria deles sem a grandeza daqueles que desdenhavam. Ouvi, na segunda-feira, com surpresa e nojo, designarem-se, uns e outros, por "colegas." Quando entrei nos jornais ensinaram-se o seguinte: "Jornalistas são camaradas e tratam-se sempre por tu. Colegas são as putas." Ficou-me para sempre.

Fonte: Jornal de Negócios
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