segunda-feira, 8 de junho de 2009

110 por cento

Acredito em tudo. Um dia vi Sérgio Conceição a apertar a mão ao Lendoiro, selando uma transferência sensacional para o Deportivo da Corunha; na manhã seguinte, estava em Itália, a ser apresentado na Lazio, num volte-face que ultrapassou os jornais. Sim, no que ao mercado diz respeito, acredito em tudo e não acredito em nada até apurar os factos. Uma pessoa deita-se com uma certeza inabalável e desperta para uma mentira impiedosa. É de madrugada que muitos negócios são concretizados, quando a rotativa já debita jornais atrás de jornais.

Um dia, há uma década, num lugar longínquo no interior do País, houve uma chicotada num clube a seguir a um jogo. Eu estava lá. E do Porto mandaram-me ficar por lá o tempo que fosse necessário. Cheguei ao nome do novo treinador num instante: bastou ir ao bar do clube, numa manhã cinzenta e sem história, para esbarrar com o irmão do empresário que estava a tratar do negócio. À hora do almoço já tinha a «fonte» controlada. A reunião ia ser no Porto, o treinador tinha bom currículo, fora jogador de dois grandes, era homem de palavra. Às 22 horas, tinha a confirmação da fonte: «Ok, 100 por cento feito. Faltam só 10 por cento.»

Sorri e avancei. Bateu certo. Um exclusivo. O homem lá foi apresentado, atirando-me palavras azedas por causa de uma notícia que considerou prematura. A fonte explicou-me mais tarde o processo: Às 22 horas estava tudo certo; à meia-noite surge o primeiro desentendimento com o presidente por causa dos adjuntos; à 1 da manhã, o treinador salta fora das negociações e manda o presidente procurar outro nome; às 2.30 da manhã, reúnem-se de novo, à porta da casa do treinador, e chegam a um acordo; no caminho de regresso, por voltas das 4 da manhã, o técnico reconsidera, pede mais dinheiro e dois reforços de peso e a coisa resvala por completo; só por volta das 5.30 da manhã, treinador e presidente chegam finalmente a um consenso. Escusado será dizer que eu dormia o sono dos justos e a notícia há muito que repousava num canto da primeira página.

O diálogo com a fonte:

- Tiveste sorte, o homem esteve quase a saltar fora, foi um milagre não ter dado merda - disse-me o empresário.

- Ouve lá, disseste que estava 100 por cento feito - contrapus eu.

- Está bem, está. Mas nestas coisas é preciso estar 110 por cento feito. Eu bem te disse que faltavam os 10 por cento.

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