sábado, 25 de abril de 2009

Ser livre



Só me apercebi do 25 de Abril em 1980. Tinha oito anos, falava meia dúzia de palavras em português e vinha de um País onde a liberdade de expressão estava consagrada na Constituição há muitos anos. Em 1980 ainda se sentia no ar alguns eflúvios do golpe que derrubou a ditadura. Tinha um particular fascínio pelas pinturas murais da UDP na Rua Júlio Dinis, no Porto, e pelas palavras de ordem pintadas nas paredes de quase todas as casas velhas de Matosinhos: «Vota Pato!», «Viva Otelo!», «Vota PCTP/MRPP!». Quem era esse Pato?, questionava-me, estranhando a componente aviária do apelido. Nesses tempos, não havia VCI, nem NorteShopping, nem Estádio do Dragão, nem A3, nem outras coisas que hoje damos por garantidas.

As pessoas desanuviavam aos domingos no Dallas ou no Brasília, os Shoppings da moda, iam às compras à Santa Catarina ou na Cedofeita e escolhiam a leitura dos fins-de-semana em função da cor política dos jornais. Organizavam-se excursões à Galiza para comprar carne, rebuçados e chocolates, porque o Escudo tinha mais peso que a Peseta e compensava comprar lá esses produtos. A D. Xepa era a novela do momento, mas toda a gente ainda comentava, escandalizada, a nudez descarada de Gabriela, Cravo e Canela. Em 1980, Portugal era um país vagamente dividido entre o desejo de agarrar o progresso e a necessidade (?) de aligeirar alguns valores de Abril. Era um País simpático, mas atrasado - em tudo e em todas as áreas.

Estamos mais felizes, em 2009? Eu estou. Digo-o sem reservas. Não é o País ideal, mas também está longe de ser o pior sítio do mundo como os eternos pessimistas o pintam cá dentro, e lá fora também. Não vivi o 25 de Abril, mas estou muito agradecido aos que tiveram a coragem de sonhar com um Portugal livre. Se calhar, é preciso ter nascido fora das fronteiras lusas para perceber esse sentimento.

Enviar um comentário